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Fronteiras

Fronteiras internacionais: como são definidas e demarcadas

Uma fronteira nasce em um tratado, é levada ao terreno por comissões técnicas e depois administrada no dia a dia. Cada etapa produz seus próprios conflitos.

Redação Campogallina

Publicado em Atualizado em 10 minutos de leitura

FronteiraAlcance global

Nos trechos de floresta entre o Canadá e os Estados Unidos, equipes de campo mantêm aberta uma faixa desmatada de cerca de seis metros de largura que acompanha a linha divisória: cortar vegetação, conferir os marcos, repor os que a neve derrubou. A linha existe em tratados do século XIX, mas só continua visível porque uma comissão permanente cuida disso ano após ano. A fronteira terrestre mais extensa do mundo, com cerca de 8.891 quilômetros, é ao mesmo tempo um texto jurídico, um conjunto de marcos de concreto e um serviço público de manutenção.

Toda fronteira internacional passa por três etapas que costumam ser confundidas: a delimitação, que define a linha em documento; a demarcação, que a materializa no terreno; e a administração, a gestão cotidiana do que atravessa aquela linha. Litígios podem surgir em qualquer uma delas, por razões diferentes.

A escala do problema no mapa#

O Brasil tem cerca de 16.886 quilômetros de fronteira terrestre, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, e faz limite com dez países: todos os da América do Sul, exceto Chile e Equador. O trecho mais longo é com a Bolívia, com aproximadamente 3.400 quilômetros. A legislação brasileira define ainda uma faixa de fronteira de 150 quilômetros de largura ao longo desse perímetro, com regras próprias de propriedade e segurança.

Em escala global, a fronteira entre Rússia e China alcança cerca de 4.200 quilômetros, e a que separa Índia e Bangladesh, cerca de 4.100 quilômetros, boa parte em planície aluvial recortada por rios que mudam de curso.

Fronteira, limite e zona de fronteira#

Na linguagem técnica, limite é a linha: um objeto geométrico, sem largura, definido por coordenadas ou por acidentes geográficos. Fronteira é mais amplo e abrange tudo o que acontece em torno da linha, tratado pela geografia como área de contato com dinâmica própria.

Daí vem a noção de zona de fronteira, a faixa dos dois lados onde a vida social e econômica atravessa o limite. Em cidades gêmeas como Santana do Livramento e Rivera, moradores cruzam a linha todos os dias. A linha é jurídica e fina; a zona é social e larga. A diferença pesa em países cuja economia depende de acordos de trânsito, tema do guia sobre países sem saída para o mar.

As três etapas de uma fronteira#

Delimitação#

É a definição jurídica da linha, em tratado bilateral, laudo arbitral ou decisão judicial. O texto descreve o traçado: pontos de referência, rumos, acidentes geográficos, às vezes coordenadas. A fronteira existe então em palavras e mapas, não no terreno, e ambiguidades de redação reaparecem décadas depois, na hora de aplicá-las ao relevo real.

Demarcação#

É a materialização física. Comissões mistas dos dois Estados percorrem o traçado, escolhem os locais dos marcos, fazem levantamentos topográficos e geodésicos e lavram atas conjuntas, das quais resultam marcos numerados e cartas de fronteira. Uma fronteira delimitada e não demarcada é comum e não invalida o tratado: apenas deixa a aplicação prática em aberto.

Administração#

É a gestão cotidiana: postos de passagem, controle migratório e aduaneiro, acordos sobre uso de água e trânsito, inspeção periódica dos marcos. Boa parte dos atritos entre vizinhos ocorre aqui, sem que a linha esteja em discussão.

Tipos de limite#

Pelo traçado, os limites dividem-se em geométricos e físicos. Os geométricos seguem paralelos, meridianos ou linhas retas entre pontos, sem relação com o terreno: aparecem em grande parte da África e no paralelo 49 entre Canadá e Estados Unidos. Os físicos se apoiam em divisores de águas, cristas de montanhas e rios: são visíveis, mas os rios se movem e as cadeias podem ter mais de uma linha de cumeada.

Pelo momento em que surgiram em relação à ocupação humana, são antecedentes, quando traçados antes do povoamento denso; subsequentes, quando acompanham divisões culturais já formadas; e superimpostos, quando impostos por terceiros sobre um tecido social existente. Grande parte das fronteiras africanas e do Oriente Médio pertence à terceira categoria, o que explica por que tantos grupos humanos estão repartidos entre Estados vizinhos.

Rios como limite#

Quando um rio serve de limite, o tratado precisa dizer onde na água a linha passa. A linha média corre a igual distância das duas margens e serve a rios não navegáveis. A linha do talvegue segue o canal mais profundo, a rota de navegação, e é preferida em rios navegáveis, porque garante acesso aos dois Estados.

O problema é que rios se movem. Na acessão gradual, quando a margem se desloca lentamente por erosão e deposição de sedimento, o limite acompanha o rio. Na avulsão, quando o rio abandona o leito de forma súbita, em geral numa cheia, o limite permanece onde estava e passa a correr por um canal seco. Identificar, décadas depois, se a mudança foi gradual ou súbita exige levantamentos e produz litígios.

Conceitos que aparecem neste guia

Delimitação
Definição jurídica do traçado, feita em tratado, laudo arbitral ou decisão judicial.
Demarcação
Materialização da linha no terreno por comissão mista, com implantação de marcos.
Talvegue
Linha que segue o canal mais profundo de um rio, usada como limite em cursos navegáveis.
Uti possidetis juris
Princípio pelo qual os limites administrativos existentes na independência se convertem em fronteiras internacionais.
Enclave e exclave
Enclave é a área cercada inteiramente por território de outro Estado. Exclave é a parte de um Estado separada do corpo principal.

Princípios jurídicos que aparecem nos litígios#

Três princípios sustentam a estabilidade das fronteiras. O primeiro é pacta sunt servanda, do artigo 26 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, de 1969: tratados em vigor obrigam as partes e devem ser cumpridos de boa-fé. O segundo é a proteção especial dada aos tratados de fronteira: o artigo 62 da mesma convenção exclui os tratados que estabelecem limites da regra que permite invocar mudança fundamental de circunstâncias. A Convenção de Viena sobre Sucessão de Estados em Matéria de Tratados, de 1978, segue a mesma direção.

O terceiro é o uti possidetis juris, adotado pelas repúblicas latino-americanas no século XIX: as divisões administrativas coloniais existentes na data da independência passaram a valer como fronteiras entre os novos Estados. A África adotou solução equivalente na resolução da Organização da Unidade Africana aprovada na cúpula do Cairo, em julho de 1964. A lógica foi a mesma: fronteiras herdadas geram litígios pontuais, mas rediscuti-las todas geraria conflitos em cadeia.

Casos que mostram como funciona#

Brasil e a diplomacia de limites#

O Brasil fechou seus limites terrestres por tratados bilaterais assinados sobretudo entre o fim do século XIX e o início do XX, com forte recurso à arbitragem. A execução em campo cabe às comissões demarcadoras de limites do Ministério das Relações Exteriores, que inspecionam os marcos e fazem levantamentos com as comissões vizinhas, boa parte do trabalho em floresta e áreas alagáveis.

Índia e Bangladesh: a troca de enclaves de 2015#

A fronteira abrigava mais de uma centena de enclaves, resultado de partilhas anteriores à independência, com pessoas vivendo em parcelas cercadas pelo país vizinho e sem acesso regular a serviços públicos. Um acordo de 1974 previa a solução, implementada só em 2015, quando os dois Estados trocaram os enclaves e permitiram que os moradores escolhessem a nacionalidade. A operação afetou dezenas de milhares de moradores.

Nigéria e Camarões: a Península de Bakassi#

A soberania sobre a península, em área de mangue rica em recursos, foi disputada pelos dois países e levada à Corte Internacional de Justiça. Em decisão de outubro de 2002, a Corte concluiu pela soberania camaronesa sobre Bakassi, com base nos instrumentos aplicáveis. A transferência da administração, negociada com apoio das Nações Unidas, se completou em agosto de 2008.

Chile e Argentina: os Campos de Gelo Patagônicos#

Acordos sucessivos resolveram quase toda a fronteira andina, que passa de 5 mil quilômetros. Nos Campos de Gelo Patagônicos, porém, sobre uma calota em movimento, o divisor de águas não é estável nem facilmente identificável. Um entendimento de 1998 deixou pendente o trecho entre o Monte Fitz Roy e o Cerro Murallón, que segue sem delimitação acordada.

Estados Unidos e México: o rio Bravo/Grande#

O limite se estende por cerca de 3.100 quilômetros, em sua maior parte pelo curso do rio conhecido como rio Bravo no México e rio Grande nos Estados Unidos. Como o rio muda de leito, o traçado gerou controvérsias recorrentes no século XX. O tratado de limites de 1970 fixou o limite no canal principal e atribuiu à comissão internacional bilateral de limites e águas a tarefa de manter a linha.

Esquema em duas faixas. Na faixa superior, as três etapas em sequência: delimitação, com um documento e a linha traçada sobre o mapa; demarcação, com marcos implantados ao longo da linha no terreno; e administração, com um ponto de passagem e cooperação entre os dois lados. Na faixa inferior, três tipos de limite lado a lado: geométrico em linha reta, fluvial com indicação da linha média e do talvegue, e por divisor de águas em terreno montanhoso.
Do tratado ao posto de passagem. Acima, a sequência que toda fronteira percorre: primeiro a linha é escrita, depois é levada ao terreno em marcos e por fim é administrada todos os dias. Abaixo, os três traçados mais comuns, com destaque para a diferença entre linha média e talvegue nos limites fluviais. Esquema original do Campogallina.

Situações especiais#

Enclaves e exclaves. Kalininegrado é um exclave russo de cerca de 15 mil quilômetros quadrados no Báltico, separado do restante do país desde 1991 e cercado por Polônia e Lituânia. Llívia é um território espanhol de aproximadamente 13 quilômetros quadrados inteiramente rodeado pela França, situação que remonta a tratados do século XVII.

Condomínios e administração conjunta. Há áreas em que dois Estados exercem soberania em conjunto ou em alternância. A Ilha dos Faisões, banco fluvial de menos de um hectare no rio Bidassoa, é administrada pela Espanha metade do ano e pela França na outra, arranjo que vem do Tratado dos Pireneus, de 1659.

Fronteiras não demarcadas ou parcialmente demarcadas. Vários limites estão definidos em tratado sem que existam marcos em toda a extensão, por dificuldade de acesso ou falta de acordo sobre pontos específicos. Isso não os invalida, mas aumenta a chance de incidentes locais. Quando a discordância recai sobre a titularidade da área, e não sobre onde passa a linha, o caso integra o conjunto de territórios disputados.

Fronteira internacional e limite administrativo interno. O limite entre duas unidades de um mesmo Estado é definido por lei interna e pode ser alterado por decisão nacional. Uma fronteira internacional só muda por acordo entre os Estados interessados ou por decisão a que ambos se submetam. A distinção importa quando um Estado se divide, momento em que um limite interno pode se converter em fronteira internacional, como prevê o uti possidetis juris. Já os limites entre continentes são apenas convenções de referência, ponto detalhado no guia sobre países transcontinentais.

Quando um trecho de fronteira tem posições divergentes, este guia registra o que consta dos tratados e das decisões e apresenta as posições das partes lado a lado, conforme a política de neutralidade.

Fontes#