Mudanças recentes de nomes oficiais de países
Trocar o nome de um Estado é um ato interno comunicado à ONU. A adoção pelos demais países, mapas e bases de dados leva tempo e nem sempre acontece de maneira uniforme.
Redação Campogallina
Publicado em Atualizado em 9 minutos de leitura
Um atlas escolar impresso em 2017 traz a Suazilândia no sul da África, a Turquia na península da Anatólia e a República Tcheca no centro da Europa. Nenhum desses três Estados mudou de fronteira desde então, e nenhum perdeu ou ganhou território. Ainda assim, o mapa está desatualizado em três pontos: os nomes registrados nas Nações Unidas hoje são Eswatini, Türkiye e Chéquia. A mudança do nome de um país é um ato rápido de decidir e lento de circular.
Nomes de Estados não são etiquetas neutras. Eles carregam projeto político, memória histórica e, em alguns casos, disputa com vizinhos. Mudá-los é decisão soberana; fazer com que o novo nome seja usado por outros governos, editoras, sistemas de informação e escolas é outra história, que costuma se estender por anos.
Onde as mudanças recentes aconteceram#
Entre os 193 Estados-membros das Nações Unidas, meia dúzia alterou seu nome ou a forma pela qual pede para ser designado desde 2013. Os casos se distribuem por três continentes: África, com Eswatini e Cabo Verde; Europa, com Macedônia do Norte, Chéquia e Países Baixos; Ásia, com Türkiye. Não há concentração regional nem padrão temporal: são decisões independentes umas das outras.
O que elas têm em comum é a ausência de qualquer alteração no mapa. Nenhuma moveu uma fronteira, criou um Estado ou extinguiu outro. É uma diferença importante em relação às renomeações do século XX, que em geral acompanhavam independências, unificações ou dissoluções, como a passagem do Alto Volta a Burkina Faso, em 1984, ou do Zaire a República Democrática do Congo, em 1997.
O caminho de uma mudança de nome#
O procedimento não envolve autorização externa e tem quatro momentos.
- Ato interno. O Estado decide pela mudança segundo suas próprias regras: proclamação, lei, emenda constitucional ou decreto.
- Comunicação às Nações Unidas. O governo envia carta ao Secretário-Geral informando o novo nome e a forma como deseja ser designado. A partir do recebimento, o Secretariado atualiza a lista de Estados-membros, a ordem protocolar e a base terminológica da organização. Não há votação nem exame de mérito: trata-se de registro.
- Atualização das listas de referência. O boletim de terminologia das Nações Unidas passa a trazer a nova forma nos idiomas oficiais, e a norma ISO 3166, que atribui os códigos de país, registra a alteração. Os códigos de duas letras costumam permanecer os mesmos, porque acompanham o Estado e não a grafia do nome.
- Adoção prática. Chancelarias, institutos de geografia e estatística, editoras de mapas e bancos de dados atualizam em ritmos próprios. É a etapa mais demorada e a menos uniforme.
Nome curto, nome oficial, exônimo e endônimo#
Conceitos que aparecem neste guia
- Nome curto
- Forma usada no dia a dia, em mapas e em tabelas: Brasil, Chéquia, Países Baixos.
- Nome oficial longo
- Designação formal do Estado, usada em tratados e documentos solenes: República Federativa do Brasil, Reino dos Países Baixos.
- Endônimo
- Nome pelo qual um lugar é chamado no idioma local: Deutschland, Nippon, Sakartvelo.
- Exônimo
- Nome usado em outro idioma que não o local: Alemanha, Japão, Geórgia. Exônimos consagrados não são erros.
- Forma única para todos os idiomas
- Pedido de que uma única grafia, em geral o endônimo, substitua os exônimos em todas as línguas. Foi o caminho de Cabo Verde e de Türkiye.
Um Estado pode alterar apenas o nome curto e manter o longo, como fez a Chéquia, cuja denominação formal continua sendo República Tcheca. Pode alterar os dois, como Eswatini. Pode manter o nome e pedir que ele não seja traduzido, situação de Türkiye. E pode deixar de usar um apelido popular em sua comunicação oficial, sem que nada mude juridicamente, como no caso neerlandês.
Por que o nome importa#
Três motivações aparecem com frequência. A primeira é de identidade: substituir uma designação de origem estrangeira ou colonial por outra que venha da língua local. A segunda é de política interna, quando o nome afirma um projeto de país diante da própria população. A terceira é diplomática, e surge quando a designação de um Estado é contestada por um vizinho que a considera relacionada a território, patrimônio histórico ou identidade sob sua jurisdição. Nesse caso, o nome passa a ser objeto de negociação, com efeitos sobre reconhecimento e participação em organizações, como se vê no guia sobre como um país é reconhecido internacionalmente.
Os casos recentes, um a um#
Suazilândia para Eswatini, 2018#
Em abril de 2018, durante as celebrações dos cinquenta anos da independência, o rei Mswati III proclamou a adoção de Eswatini, forma derivada do nome do país em suasi, em substituição a Suazilândia. A mudança foi comunicada às Nações Unidas e passou a constar dos registros da organização ainda naquele mês, com o nome oficial longo Reino de Eswatini. Entre as razões apresentadas publicamente estava o desejo de abandonar um nome de formação parcialmente inglesa, herdado do período colonial.
Macedônia do Norte, 2019#
Desde a independência, em 1991, o nome do país foi objeto de controvérsia com a Grécia. A posição grega era que a designação Macedônia, sem qualificativo, remetia a uma região histórica e a uma província grega, com implicações sobre patrimônio histórico e identidade. A posição do país vizinho era que a escolha do próprio nome e da denominação de sua língua e nacionalidade cabia a ele. Enquanto a controvérsia durou, o Estado foi admitido nas Nações Unidas, em 1993, sob uma designação provisória referida à antiga federação iugoslava, adotada apenas para efeitos do funcionamento da organização.
Em junho de 2018, os dois governos assinaram, às margens do lago Prespa, um acordo que estabeleceu Macedônia do Norte como nome a ser usado por todos e para todos os fins, com previsões sobre a designação da nacionalidade e da língua. Após ratificações e uma emenda constitucional, o acordo entrou em vigor em fevereiro de 2019, e as Nações Unidas registraram a nova denominação. O acordo foi objeto de contestação interna nos dois países, e este guia registra o texto e as posições das partes sem avaliá-las.
Türkiye e Cabo Verde: uma forma única para todos os idiomas#
O governo turco solicitou, em carta ao Secretário-Geral das Nações Unidas, que o país passasse a ser designado Türkiye em todos os idiomas, substituindo as formas traduzidas. A mudança passou a valer nos registros da organização em 1º de junho de 2022. A forma solicitada corresponde ao endônimo, com a grafia usada em turco, e o código de país permaneceu inalterado.
O mesmo mecanismo já havia sido usado por Cabo Verde, que comunicou às Nações Unidas, em 2013, que a forma portuguesa deveria valer em todos os idiomas, dispensando as traduções então correntes em inglês e francês.
Chéquia como nome curto, 2016#
A República Tcheca registrou nas Nações Unidas, em 2016, a forma curta Chéquia, correspondente ao endônimo Česko, para uso em contextos em que a denominação formal é desnecessária, como mapas e tabelas. Não houve substituição: o nome oficial longo continua sendo República Tcheca, e as duas formas coexistem, como Brasil e República Federativa do Brasil. A adoção da forma curta foi desigual, inclusive dentro do próprio país.
Países Baixos e o fim do uso promocional de Holanda, 2020#
Aqui não houve mudança de nome. O Reino dos Países Baixos sempre se chamou assim, e Holanda designa, em rigor, duas províncias do país. O que ocorreu foi uma decisão de comunicação: a partir de janeiro de 2020, o governo e as agências de promoção passaram a usar exclusivamente Países Baixos em campanhas e material institucional. O caso mostra a distância entre o nome registrado e o nome que circula.
A adoção pode ser não apenas lenta, mas seletiva. A alteração para Myanmar foi adotada em 1989 e recebida de modo desigual: governos e publicações mantiveram por muito tempo a designação anterior, em parte por razões políticas relativas ao regime que promoveu a mudança. Ali, usar um nome ou outro passou a ser lido como posição.
Situações especiais#
Capitais e cidades que mudam de nome. A alteração do nome de uma cidade não altera o nome do Estado. A capital do Cazaquistão passou a chamar-se Nur-Sultan em 2019 e voltou a Astana em 2022. Mudanças de romanização também produzem grafias novas, como nas formas Kyiv e Kiev para a capital ucraniana.
Mares e acidentes geográficos com duas designações. A extensão de água entre a península coreana e o arquipélago japonês é chamada Mar do Japão por uns e Mar do Leste por outros, e a controvérsia se reflete nas publicações da Organização Hidrográfica Internacional, cuja obra de referência sobre limites de oceanos e mares foi objeto de decisão, em 2020, de migrar para identificadores numéricos. O golfo entre a Península Arábica e o Irã é designado Golfo Pérsico nos documentos das Nações Unidas, enquanto a forma Golfo Arábico circula em publicações e Estados da região. A existência de duas designações em uso não equivale a uma disputa de soberania sobre as águas, questão tratada no guia sobre territórios disputados.
Mudanças por alteração de regime ou de forma de Estado. Trocas de nome que acompanham transformações constitucionais afetam o nome oficial longo, ao passar de reino a república ou de república a federação, muitas vezes preservando o nome curto. A atualização junto às Nações Unidas segue o mesmo procedimento, e o assento do Estado continua o mesmo, ponto detalhado no guia sobre como a ONU reconhece seus membros.
A defasagem. Registro na ONU, códigos ISO, bases estatísticas nacionais, atlas escolares e sinalização de aeroportos não mudam ao mesmo tempo. É comum encontrar, no mesmo ano, documentos oficiais com a forma nova e mapas didáticos com a antiga. Não é erro de uma das partes, e sim ciclos de atualização diferentes.
Como este guia registra os nomes#
A regra adotada em todo o material é direta: usamos a forma comunicada às Nações Unidas pelo próprio Estado. Quando a designação anterior ainda é a mais conhecida no Brasil, registramos as duas na primeira menção e seguimos com a forma atual no restante do texto. Em nomes de mares e acidentes geográficos com duas designações em uso, apresentamos ambas, separadas por barra, sem escolher entre elas. Os critérios completos estão descritos na página de fontes e metodologia.
Fontes#
- Organização das Nações Unidas. UNTERM — base terminológica das Nações Unidas, nomes curtos e formais de países nos idiomas oficiais. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Organização das Nações Unidas. Member States, lista oficial dos 193 Estados-membros e datas de admissão. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Organização das Nações Unidas. United Nations Treaty Collection, registro de acordos bilaterais, entre eles o acordo de 2018 entre Grécia e Macedônia do Norte. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Ministério dos Negócios Estrangeiros da Grécia. Portal institucional, posição oficial grega sobre a questão do nome e sobre o acordo de Prespa. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Ministério dos Negócios Estrangeiros da Macedônia do Norte. Portal institucional, posição oficial sobre a denominação do Estado e a aplicação do acordo. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Organização Internacional de Normalização. ISO 3166 — Country Codes, registro de nomes e códigos de países e territórios. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Governo dos Países Baixos. Portal institucional, comunicação oficial sobre o uso de Países Baixos. Consultado em 10 de setembro de 2026.
- Organização Hidrográfica Internacional. Portal institucional, publicação de referência sobre limites de oceanos e mares. Consultado em 10 de setembro de 2026.