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Fronteiras do Brasil: dez vizinhos e 16 mil quilômetros

Dez vizinhos e mais de 16 mil quilômetros de limite terrestre. A maior parte está delimitada por tratado; a administração cotidiana é feita por comissões e postos.

Redação Campogallina

Publicado em Atualizado em 9 minutos de leitura

FronteiraAmérica

No rio Oiapoque, a linha entre o Amapá e a Guiana Francesa é água. O traçado que a fixou não nasceu de um acordo direto entre Brasília e Paris. Saiu de um laudo do Conselho Federal Suíço, de 1º de dezembro de 1900, que leu títulos coloniais e escolheu o talvegue do rio. Dois mil quilômetros a sudoeste, entre o Acre e o Peru, o mesmo Estado tem um limite de 1909 inspecionado por comissões que levam dias até o marco seguinte. Os dois trechos são fronteira internacional. O papel que os descreve e o terreno que os esconde não se parecem.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística publica cerca de 16.886 quilômetros de limite terrestre. São dez vizinhos. A maior parte da linha está delimitada por tratado ou por laudo. O que resta é demarcar de novo o que a floresta cobriu, ler o rio que mudou de leito e administrar a faixa interna de 150 quilômetros que a Constituição chama de faixa de fronteira. As etapas gerais estão no guia sobre fronteiras internacionais.

A escala do perímetro#

O Brasil ocupa cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados na porção centro-oriental da América do Sul. O limite terrestre corre do Chuí ao cabo Orange e depois segue o arco amazônico até o Paraguai e a Argentina. O IBGE registra que cerca de dois terços dessa extensão estão no Norte. O litoral atlântico, na medida clássica do instituto, fica da ordem de 7.367 quilômetros. A linha com os vizinhos é mais longa que a costa.

Onze unidades da Federação tocam outro Estado: Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia, Roraima e Santa Catarina. Em 2021, o IBGE listou 588 municípios na faixa de fronteira, numa área de cerca de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, equivalente a 16,7 por cento do território. Em 435 deles, o município inteiro cabe na faixa.

Dez vizinhos e dois ausentes#

Os dez vizinhos são Argentina, Bolívia, Colômbia, França, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. A França entra pela Guiana Francesa, departamento ultramarino, não por uma décima república sul-americana, recorte próximo do guia sobre territórios ultramarinos. Chile e Equador não tocam o Brasil: o Peru e a Bolívia separam o território brasileiro do Chile; a Colômbia e o Peru separam-no do Equador.

Extensões aproximadas dos limites terrestres, em quilômetros. A soma consolidada fica em cerca de 16.886 quilômetros.
Vizinho Extensão Traçado predominante
Bolívia3.423Rios e divisor
Peru2.995Rios do Alto Amazonas
Venezuela2.199Divisor de Parima e Pacaraima
Colômbia1.644Rios, inclusive o Amazonas
Guiana1.606Tacutu, Maú e divisor
Paraguai1.365Paraná, Paraguai e Apa
Argentina1.261Uruguai, Iguaçu e afluentes
Uruguai1.068Rios, Chuí e Lagoa Mirim
França (Guiana Francesa)730Talvegue do Oiapoque
Suriname593Divisor do Tumucumaque

Dois desses vizinhos não têm litoral próprio. Bolívia e Paraguai dependem de acordos de trânsito e de hidrovias, situação do guia sobre países sem saída para o mar.

Como os limites foram escritos#

O ponto de partida colonial é o Tratado de Madri, de 13 de janeiro de 1750, que substituiu a meridianidade de Tordesilhas pela ocupação efetiva. O Tratado de Santo Ildefonso, de 1º de outubro de 1777, reajustou trechos. A independência de 1822 herdou esse arquivo incompleto. A linha de hoje é, em grande parte, produto de tratados e laudos posteriores a 1850.

O método repetido foi descrever o traçado em documento bilateral ou submetê-lo a um árbitro. O laudo de 5 de fevereiro de 1895, do presidente Grover Cleveland, decidiu Palmas entre Brasil e Argentina. O laudo suíço de 1900 fixou o Amapá em face da França. O laudo de 6 de junho de 1904, do rei Vítor Emanuel III da Itália, atribuiu o Pirara à então Guiana Britânica. O Tratado de Petrópolis, de 17 de novembro de 1903, incorporou o Acre ao Brasil em troca de compensação à Bolívia e da ferrovia Madeira-Mamoré. Tratados sucessivos fecharam os demais segmentos com Peru (1909), Colômbia (1907 e 1928), Paraguai (1872), Uruguai (1851 e 1909), Venezuela (1859) e os Países Baixos, então soberanos do Suriname (1906).

Nenhum desses atos apagou a necessidade de voltar ao terreno. As comissões mistas do Ministério das Relações Exteriores implantam marcos e refazem coordenadas quando um rio se move. Uma fronteira delimitada e só parcialmente demarcada continua válida. Fica mais exposta a incidente local.

Conceitos que aparecem neste guia

Delimitação
Definição jurídica do traçado em tratado, laudo arbitral ou decisão judicial.
Demarcação
Materialização da linha no terreno por comissão mista, com marcos e atas.
Faixa de fronteira
Faixa interna de até 150 quilômetros ao longo do limite terrestre, no artigo 20, parágrafo 2º, da Constituição.
Talvegue
Linha do canal mais profundo de um rio, usada como limite em cursos navegáveis.
Cidade gêmea
Par de núcleos urbanos de lados opostos da linha, com circulação diária.

Rios, divisores e o texto do tratado#

Grande parte do perímetro é física. Rios descrevem o Oiapoque, trechos longos com a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o arco sul. Divisores de água predominam em face da Venezuela, da Guiana e do Suriname, nas serras de Parima, Pacaraima e Tumucumaque.

Quando o limite é um rio, o tratado precisa dizer onde, na água, a linha passa. A linha média serve a cursos sem navegação regular. O talvegue segue o canal mais fundo e preserva o acesso dos dois lados. O Oiapoque foi lido assim em 1900. Na acessão gradual, a linha acompanha a margem. Na avulsão, o rio abandona o leito de uma vez e a linha permanece onde estava. Nos divisores, duas comissões podem discordar sobre qual cumeada o texto antigo descreveu. A demarcação resolve ponto a ponto. Não redesenha o título.

A faixa de cento e cinquenta quilômetros#

O artigo 20, parágrafo 2º, da Constituição de 1988 dispõe que a faixa de até 150 quilômetros ao longo das fronteiras terrestres, designada como faixa de fronteira, é considerada fundamental para a defesa do território, e que sua ocupação e utilização serão reguladas em lei. A lei n. 6.634, de 2 de maio de 1979, restringe certas atividades na faixa e submete atos de ocupação e de radiodifusão a autorização específica.

A faixa não é território internacional nem zona neutra. É território brasileiro com regime interno especial. Quem mora em Foz do Iguaçu ou em Tabatinga está no Brasil e, ao mesmo tempo, sob filtros extras de propriedade e de segurança. O Conselho de Defesa Nacional, previsto no artigo 91, opina sobre o uso dessa faixa. A inclusão de um município na lista do IBGE não altera o traçado internacional. Altera o conjunto de regras internas que incidem sobre aquele território.

A França é o Estado, não a Guiana

Contar dez vizinhos é correto se o décimo for a França. Contar dez repúblicas sul-americanas é incorreto. Quem assina, demarca e administra do outro lado do Oiapoque é a França.

Cinco trechos do perímetro#

Bolívia e o Acre#

O trecho mais longo, cerca de 3.423 quilômetros, mistura rios da bacia do Paraguai e da Madeira com divisores no planalto ocidental. O Tratado de Ayacucho, de 27 de março de 1867, descreveu um limite que a ocupação de seringueiros no Acre tornou inaplicável na prática. O Tratado de Petrópolis, em 1903, redistribuiu a área: o Brasil incorporou cerca de 191 mil quilômetros quadrados e pagou duas milhões de libras esterlinas, além de se comprometer a construir a ferrovia entre Madeira e Mamoré. O título hoje é o de 1903.

Argentina e o laudo de Palmas#

O limite de cerca de 1.261 quilômetros apoia-se em rios. A controvérsia sobre os afluentes do Uruguai na região de Palmas foi ao arbitramento dos Estados Unidos. O laudo de 1895 situou a linha nos rios Peperi-Guaçu e Santo Antônio. O tratado de 1898 converteu o laudo em traçado bilateral. No extremo oeste desse segmento está a tríplice fronteira com o Paraguai, em Foz do Iguaçu.

França e o laudo do Amapá#

França e Brasil disputaram, no século XIX, se o limite setentrional seguia o Oiapoque ou um rio mais a sul. O Conselho Federal Suíço, em 1900, escolheu o Oiapoque. A linha atual, de cerca de 730 quilômetros, é esse talvegue. A ponte entre Oiapoque e Saint-Georges não alterou o título: alterou a administração da passagem.

Guiana e o Pirara#

O laudo italiano de 1904 examinou a área do Pirara e atribuiu o território à Guiana Britânica. O Brasil aceitou o resultado. O limite atual de cerca de 1.606 quilômetros incorpora essa perda. O perímetro não é uma sucessão de ganhos.

Paraguai e a hidrovia#

O tratado de 1872 descreveu um limite de cerca de 1.365 quilômetros pelos rios Paraná, Paraguai e Apa. A vida econômica que a atravessa depende do calado da hidrovia Paraguai-Paraná, eixo de cerca de 3.400 quilômetros navegáveis usado pelo comércio exterior paraguaio. Na estiagem, o mesmo rio que serve de fronteira reduz o trânsito. O título jurídico não oscila com o nível da água.

Esquema em duas faixas. Acima, as três etapas de uma fronteira: delimitação em documento, demarcação com marcos no terreno e administração num ponto de passagem. Abaixo, três tipos de limite: geométrico em linha reta, fluvial com linha média e talvegue, e divisor de águas em terreno montanhoso.
Do tratado ao posto, com o rio no meio. No perímetro brasileiro, a sequência é a mesma de qualquer fronteira: o texto, o marco e a passagem. Abaixo, a diferença entre linha média, talvegue e divisor de águas, que explica boa parte das releituras de campo. Esquema original do Campogallina.

Situações especiais#

Ilha Brasileira no rio Uruguai. Na confluência do Quaraí com o Uruguai, junto a Barra do Quaraí, há uma ilha que o Brasil administra como parte do Rio Grande do Sul e que o Uruguai reivindica. Controle efetivo e reivindicação formal são camadas distintas. O caso é pontual e não reabre o tratado de 1851, método do guia sobre territórios disputados.

Tríplices fronteiras. Há vários pontos em que três Estados se encontram, entre eles Brasil-Argentina-Paraguai e Brasil-Peru-Colômbia. Cada ponto é o encontro de dois tratados. A coordenada só existe se os dois documentos forem compatíveis naquele vértice.

Cidades gêmeas. Santana do Livramento e Rivera, Chuí e Chuy, Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, Tabatinga e Letícia funcionam como um tecido urbano cortado pelo limite. A administração concentra ali mais atrito que a delimitação.

O que a linha terrestre não resolve. Este guia trata do limite em terra e em rio. A projeção marítima no Atlântico é outro recorte e não altera os tratados com os dez vizinhos. A faixa de 150 quilômetros também não cria direitos sobre o território do Estado contíguo: é norma interna sobre o lado brasileiro.

Onde um trecho admite leitura divergente, o texto registra o título, o controle e a reivindicação em separado, conforme a política de neutralidade.

Fontes#